quinta-feira, 22 de setembro de 2011

HÁ FRIO NA PRIMAVERA

É primavera,
mas o frio não cessa,
vem e vai em ondas contínuas,
calafrios de medo, ansiedade, angústia.

Faz frio,
e eu não sei me aquecer,
envolvo-me em afetos ilusórios,
aconchegos traiçoeiros, descartáveis.

O fogo do âmago terrestre,
límpido, intenso, enérgico,
emerge suave para a crosta
e possibilita flores e frutas.

Mas há uma energia em mim,
obscura, pálida, simplória, vã,
emerge débil, estéril, incolor,
razão de paisagens desérticas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Semi-vivos


Naquele cenário onde habitava a bruxa, as pessoas semi-viviam sob o peso de sentimentos tóxicos. Ódio e inveja são inclinações vis, mesmo contra bruxas. Não convém perder tempo em odiar o diabo; é mais feliz quem dignifica o tempo amando o Criador e suas criaturas. Bom é investir energia aos que se abrem ao amor, deixar na indiferença os que buscam se alimentar das fraquezas humanas. A bruxa bem sabia que o ser humano, contraditório, é habitado de luzes, que movem, e de sombras, que paralisam. E ela dominava a arte de escancarar o portal das sombras. Fácil, muito fácil, liberar do coração o que é vil. Prazeres estranhos. Estava consciente a bruxa de que não havia nada que ela pudesse semear nos corações. Cabia-lhe somente o poder de revelar as maldades já instaladas dentro de cada um. Ela era apenas espelho. Este era o lado salutar da bruxa: dar à luz o que havia de tenebroso em cada coração. Porém, as pessoas não sabiam olhar para dentro, consideravam o ódio e a inveja culpa da bruxa. Fatal dispersar o olhar, quando o segredo é canalizar o olhar para si. O auto-conhecimento dói, mas purifica os que se inclinam para a sabedoria. Permanece nas sombras quem rejeita o espelho. Contudo, pode reviver quem se volta para a luz, mesmo que seja assustador deparar-se consigo mesmo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A última missa do padre


O padre sorriu ao vê-la entrar. A missa já havia começado, mas ele não se importou. Conhecia a lentidão da mula e sabia que a bruxa vinha de longe, trazendo a carroça abarrotada de legumes, verduras e cereais para o seminário. Cota mensal. Pobre eqüino! Ofegava puxar a carroça por aquelas estradas íngremes, entre morros e grotas, além de enfrentar os cães, quando passava pelas casas. O povo era convocado a colaborar com o sustento dos seminaristas, e ela queria ser a mais generosa, fazendo o padre abrir-se inteiramente em risos e elogios. Pura necessidade de despertar invejas. No transcorrer da cerimônia, o padre, já idoso, foi exibindo sinais de cansaço, voz débil, olhar distante, gestos lentos... A bênção final, rumou para a sacristia, passos demorados. Dez passos... nove... oito... sete... seis... cinco... quatro... três... dois...um! O último. Morte súbita.
O último ganido de um cão


A bruxa esperava que o cão investisse furioso contra a carroça e acelerasse os passos da mula. Sempre fazia isso, e ela aprovava. Mas, naquela madrugada, ele não se moveu. A carroça passou devagar e a bruxa esbravejava contra a lerdeza da mula. Sem coordenação motora, paralisado, o cão permaneceu estendido, em estado adiantado de loucura. Tinha passado o dia anterior fora de casa e, após longa caminhada, deu jeito de se arrastar até o terreiro. O urubu, julgando-o morto, precipitou-se animado sobre ele, certo de saciar a fome e recuperar as forças. Dez metros, cinco, quatro, três, dois, um... a firme bicada fez o cão emitir tão estridente latido que a ave voltou assustada ao espaço. O último ganido.

ESTAÇÕES

As estações apresentam seus encantos e desencantos.
Há fragilidade e contradição nas estações.
Não há pureza: em cada estação existe sempre um pouco das demais.
Com as estações e suas peculiaridades, a natureza me ensina que nada é mais belo e simples e certo que as transformações.
Sou natureza, faço parte das estações, tenho minhas próprias estações.
Condição natural e humana.
É tempo agora de viver a primavera.
Mas as demais estações estão presentes para me recordar que na existência e na vida há complexidade e que tudo faz parte de uma teia.
Em qualquer estação é sempre tempo de celebrar.
Celebrar: parte essencial da existência.
Celebrar: fina espiritualidade.

Haicai Pipoca

Magia dourada.
Aos olhos maravilhados,
exibe-se a pérola saltitante.



SABOR E SABER

Faz-se alegria o grão dourado
em mãos simples do pipoqueiro.

Faz-se magia a palavra dourada
em mãos simples do poeta.

Faz o pipoqueiro do grão pipoca
para imprimir sabor ao milho.

Faz o poeta da palavra poema
para imprimir saber ao texto.

Há no pipoqueiro e no poeta feitiço
que transforma grãos e palavras.

Grãos que explodem em pipocas,
para alimentar o corpo.

Palavras que despertam em poemas,
para alimentar o espírito.

Grão e palavra: metáforas férteis
que a arte lhes concede vida.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O único olhar de um verme


Na madrugada fria e abaçanada, à beira do rio, fez-se um pequeno furo, no meio do capim que crescia macio na areia. Um verme branco mostrou os olhos, pela primeira vez. O frio quase o fez recuar.
Apesar da temperatura, deixou o buraco; entretanto, escondido pela vegetação espessa, que parecia uma floresta, sentiu-se inseguro de se afastar do abrigo. Porém, distraiu-se... e quando percebeu, não sabia mais de onde saíra.
Arrastou-se para lá e para cá, demorou-se, veio sobre ele a luz do sol, suave, que penetrava entre as folhas do capim. Entre o verde e o nevoeiro, o verme pouco enxergava, além do brilho solar.
O urubu, em seus últimos segundos, antes de se precipitar às águas, de repente, viu à frente o pequeno verme branco. Por ímpeto natural, no uso das últimas energias, de asas estendidas, bico entreaberto, apanhou-o, mas era tarde. Alguns metros à frente, insensíveis, moviam-se as águas. Cinco metros, quatro, três, dois, um... com o baque, o verme soltou-se, contorceu-se de frio, imergiu. E lá se foi ele para o fundo, devorado ainda semi-vivo pelos peixes.